Escoteiro mostra a importância de sua Promessa

25/05/2017

Aos onze anos de idade, fiz uma promessa. Durante a vida, renovei minha promessa diversas vezes. Esse é mais um momento que a renovarei:

"Prometo pela minha honra fazer o melhor possível para cumprir com meus deveres para com Deus e minha pátria ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer a lei escoteira."

 

 

 

Artigo 3 da lei escoteira:
O escoteiro está sempre alerta para ajudar o próximo e praticar diariamente uma boa ação.

 

Hoje quando estava indo para o trabalho, acompanhado do meu chefe após voltar há menos de 48 horas das férias e atrasado para uma reunião, vi uma senhora caindo do outro lado da faixa de pedestres da Rua General Roca na Tijuca. Não pensei. Entreguei minha mochila ao meu chefe e disse "segura" e sai correndo.

Curiosos já se aproximavam enquanto uma poça de sangue se formava na frente do rosto da senhora. Lembrei rapidamente de todos os meus treinamentos e adestramentos. Eles não foram poucos. Aos 14 anos fui o mais jovem a concluir o curso de atuação em situações de calamidade da defesa civil do estado do Rio de Janeiro. Aos 16, já tinha cursos de primeiros socorros e salvamento do SAMU e salvamento aquático dos bombeiros. Aos 18, já fazia acampamento selvagem e até já fiz uma micro cirurgia no meu próprio rosto sem anestesia com um bisturi. Aos 24 tirei minhas certificações internacionais para agir em áreas de conflito e águas internacionais, assim como treinamento anti-terrorismo.

Quando meu avô morreu, eu fiz reanimação cardio-respiratória por 40 minutos até a chegada da ambulância. Nunca, em nenhuma dessas situações eu pensei, nem por um segundo que havia alguma outra opção que não o socorro imediato ao próximo.

Sentei no chão para fazer a checkagem padrão dos sinais vitais e percebi que a senhora estava lúcida, apesar de perdida. Desmaiou por conta do calor e má alimentação pela manhã e bateu fortemente no asfalto. Havia um corte profundo no supercílio direito (área extremamente vascularizada e que causa muito sangramento até em cortes superficiais) e inchaço abaixo do olho, mostrando algum tipo de sangramento interno ocular.

Expliquei calmamente o que havia ocorrido e direcionei os curiosos para tudo que pudesse ajudar. Desviar o trânsito, abanar, ligar para os bombeiros. Dei função a todos que queriam ajudar, para que não atrapalhassem. Evitei que qualquer um movesse a senhora, já que ela relatava dores na cabeça e na região do pescoço (possível trauma cervical). O sangue do supercílio rapidamente coagulou colado ao asfalto. Por sorte fazia sombra, mas se ela se movesse, poderia abrir o corte e perder mais sangue.

Fiz piadas, coletei todos os dados com a ajuda de algumas mulheres que gentilmente nos abanavam e para que ela se sentisse confiante, deitei ao lado dela com o rosto colado ao asfalto, segurando sua mão e pedindo que ela apertasse vez ou outra quando fechava os olhos e tentava dormir ou desmaiar.

A guarda municipal foi a primeira a chegar na ocorrência e eu relatei todas as informações que coletei: familiares, medicamentos de uso contínuo, endereço. Eles rapidamente perceberam que eu estava prestando corretamente os primeiros socorros e trabalharam em auxílio para isolar a área com cones, guardas e viaturas que estavam disponíveis, afinal, já havia um atendimento em andamento e a senhora estava com quadro estável.

Foquei toda a minha atenção na senhora e pouco percebi o que acontecia ao redor, enquanto a guarda municipal cuidava do entorno e me foquei em manter a Dona Maria Hilda acordada e otimista.

Após 40 minutos, uma viatura da PM apareceu, e dois policiais, um deles portando fuzil, afirmaram que não chegaria o SAMU rapidamente e que eu me afastasse para que ele removesse a senhora na viatura da PM. Neguei:

    - Sai dai que vou jogar ela na viatura e levar ao hospital.
    - O senhor não irá tocar nela.
    - É sua parente
    - Não, mas o senhor não tocará nela.
    - Então você se responsabiliza por ela a partir de agora!
    - Não senhor, o senhor é a força publica do estado, há uma cidadã acidentada recebendo os primeiros socorros e O SENHOR É RESPONSÁVEL POR ELA.
    - Então sai da minha frente que eu vou remover ela.
    - O senhor tem uma maca, um colar cervical e uma viatura adequada para o transporte?
    - Não interessa o que eu tenho.
    - Então o senhor não irá tocar nela.

Nesse momento o PM se afastou e iniciou uma discussão atrás de mim, aos gritos com alguém que audivelmente estava tentando auxiliar a situação e não piorá-la (não sei precisar quem era já que estava deitado de costas). Ouvi atrás de mim que eu estava prestando os socorro corretamente e que o policial não estava auxiliando o procedimento, pelo contrário, a senhora que antes estava calma e fazendo piadas sobre a família, agora estava agitada querendo saber se iriam tirar ela do local ou não. Voltei minha atenção para a pessoa que importava: A Dona Maria Hilda, e nossa conversa agradável sobre o marido dela foi interrompida pelos gritos do PM com alguém atrás de mim (que também não sei precisar quem era), ameaças de voz de prisão e em algum momento os gritos começaram a ficar bem próximos a nós. Levantei minha cabeça e gritei de volta:

    - OS SENHOR ESTÁ ATRAPALHANDO UM PROCEDIMENTO DE PRIMEIROS SOCORROS, POSSIVELMENTE TENTANDO AGRAVAR O QUADRO FERINDO O ARTIGO 135 DO CODIGO PENAL,SUJEITOS A DETENÇÃO DE UM A SEIS MESES. POR FAVOR SE RETIREM.

O policial ficou maluco:

    - Quem vai me prender. você?
    - Eu não, quem prende é o judiciário, e o senhor certamente será condenado se não cumprir sua função ou pelo menos não atrapalhar a minha.

O policial ficou branco, saiu e segundo testemunhas, pegou o celular para consultar o código penal (rs).

O SAMU chegou após uma hora. Dona Maria Hilda já estava comigo fazendo piadas sobre o policial machão que não conhecia a lei. A guarda municipal passou todos os dados para os bombeiros e só me levantei do chão quando removeram a Dona Maria Hilda. Me despedi na porta da ambulância prometendo ir na casa dela tomar um café e ver como tinha ficado o trabalho de corte e costura na testa dela.

Uma fila de guardas municipais se formou, todos apertando minha mão e nos parabenizando pelo procedimento mutuamente. A guarda municipal que auxiliou corretamente a situação a despeito do posicionamento absurdo do PM, perguntou se eu aceitaria ser testemunha em um processo de sindicância caso necessário. De pronto aceitei. Dei meus dados, que também foram anotados pelo PM que se empoleirou como um papagaio sobre meu ombro. Ao final ele me perguntou rindo "E qual a profissão do doutor?"... "JORNALISTA" - respondi.

O policial riu e com ironia retrucou:

    - Jornalista douto em direito... a tá. Eu sou formado em direito e oficial da lei. Você não sabe o que tá fazendo...
    - Eu sei muito bem o que estou fazendo, sou jornalista, mas tenho mais preparo para atender os cidadãos que o senhor, mais treinamento de salvamento que o senhor e de longe mais educação.

Meu chefe se aproximou preocupado "Calma, Rafael, calma..."

Calmo eu estou, até a Dona Maria Hilda estava calma. Quem não está calmo é esse senhor de farda.

Após um dia turbulento no trabalho, liguei para a filha da Dona Maria Hilda. Felizmente nenhuma lesão cervical, a sutura foi feita no supercílio, mas há uma hemorragia no nervo ótico que não foi operada e ela aguarda medicada para ver se regredirá. Prometi ligar daqui a uns dias para saber como ela está e ir cobrar o meu café, prometido por ela naquela uma hora que dividimos a faixa de pedestres da Rua General Roca.. tá achando que foi de graça??? QUERO MEU CAFÉ! hahahha

A família dela me agradeceu por 10 minutos ao telefone. Recebi todos os agradecimentos humildemente e só respondi: Faça por alguém o que eu fiz pela sua mãe.

Aos onze anos eu fiz uma promessa pela minha honra. Sendo ateu, essa promessa sempre foi e sempre será meu código moral.

SEMPRE ALERTA PARA SERVIR

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Feito com ❤ por Allan Viana e Renan Roli

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